Agir, sabendo
Que a acção é vil e o esforço nada.
Ir para a frente por dever, mas vendo
Que não há ‘strada.
Tornar a pôr altares, templos mortos
Aos deuses reerguer, sem ignorar
Que as almas são de Cristo já, e há outros
Homens □

O esforço inútil feito por dever
E o amor à verdade inaceitável,
A teimosia ’stóica em dever ser.

Venceste, Galileu. Mas nada prova
Da verdade de ti teres vencido.
Constantemente o mundo se renova
Um dia é o dia do mal □

Ai de quem nasce no dever absurdo
De conquistar à morte um moribundo,
De falar □  a um império surdo

E dar ao mundo leis  ‘stranhas ao mundo
Quando o corrupto corpo não conhece
Por saúde senão o céu que adoece
E o natural repugna porque não
Lhe é natural, por a razão
Que força ter a força para □

Que ao menos ao meu esforço condenado
Ao exílio do êxito, o Destino
Renascimento dê nunca melhorado
Tempo aos antigos deuses mais benigno.

Assim falou com a voz que hoje trago
Há mil anos e meio o Imperador.
Se ergo de olhar para a minha alma o olhar
Com que comigo encaro e □
E o sentido da minha vida
É uma ‘státua antiga reerguida
Do fundo de um lago.

A sombra de outros deuses enche os hortos.
Que vale não crer neles, se eles vieram?
E se os deuses, em nós mortos,
Levaram para o abismo o que era seu
O amor à vida, que □  nos deram
Hoje só o amor a amar □

Bate o sol só em casas de eremitas.
Que importa não querer o ermitério?
O que de nova seiva enche as contritas
Almas, e o próprio sabor é já de Cristo.
Choras? Para que choras as avitas
Ruínas da vida □ 

Grinaldas tece para o amor que é morto
Nem só papoulas põe as claras flores.
Violetas leva, e no deixado horto
Vê se colhes as flores da tristeza...
Flor’s sem perfume como estes amores,
Flores, como estas sebes, sem beleza.

E quando, de grinalda já composta
Só restar dar-lhe o uso e ao uso os beijos,
Com lentas mãos desfá-la
Penélope sonhará, sem marido
Desfá-la como aos □  desejos
Quando realizá-los □

E assim na inútil obra em que compões
Sem mesmo ser para as compor, as flores
Que com cuidado nas grinaldas pões
E sem cuidado continuas pondo,
Vai vivendo a sonhar esses amores
Que em meu sonho de ti se iam compondo;

E um dia, ou é dos deuses, ou de além,
Que em outros corpos volta a nova alma
Em que esta dor nossa consciência tem,
Se entre outros hortos □

Talvez que estranhos um ao outro nós
Cruzemos no caminho e um só momento
Olhando-nos, cai um súbito e veloz
E autêntico assombro e □ medo
Uma emoção no nosso pensamento
Uma oculta vida de segredo.

E será que nada o amor enfim
(Por que esta grinalda morta é feita;)
E um e outro, pesando-nos na alma,
Perguntamos: porque estremeci?
Mas já passámos...

22 - 5 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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