Dormir! Não ter desejos nem ‘speranças
Flutua branca a única nuvem lenta
E na azul qiescência sonolenta
A deusa do não-ser tece alva as tranças.

Maligno sopro de árdua quietude
Percorre a fronte e os olhos aquecidos,
E uma floresta-sonho de ruídos
Ensombra os velhos morros da virtude.

Ah, não ser nada conscientemente!
Prazer ou dor? Torpor o traz e alonga,
E a sombra conivente se prolonga
No chão interior, que à vida mente.

Desconheço-me. Embrenho-me, futuro,
Nas veredas sombrias do que sonho
E no ócio em que diverso me suponho,
Vejo-me errante, demorado e obscuro.

Minha vida fecha-se como um leque.
Meu pensamento seca como um vago
Ribeiro no verão. Regresso, e trago
Nas mãos flores que a vida prontas seque.

Inconsequência de vontade absorta
Em nada querer… Prolixo afastamento
Do escrúpulo e da vida do momento…

21 - 8 - 1924

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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