Essas coisas que escrevi
Quando tinha só vinte anos,
Hoje, hoje, que as reli
Nelas, antigas, não vi
Nenhuns antigos enganos.

Meus enganos são de agora.
Quando jovem, via certo.
Hoje é que a minha alma ignora
Porque a emoção foi-se embora
E a inteligência é deserto.

Quem me dera nessa idade
Em que a ciência de dizer
Era uma suavidade,
E eu conhecia verdade
Por nada inda conhecer!

Hoje, que penso e que sinto
Somente porque pensei,
Vivo dentro de um recinto
Que me aperta como um cinto
Que demasiado apertei.

Então eu era quem era
Sem pensar nem em sentir.
Bom tempo, quem o tivera
Ainda que como hera
A matar-me de cingir!.

 

18 - 7 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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