Súbito, na alta noite, em sua tenda
O Rei dos reis acorda em sobressalto,
E ‘spalha em torno o ignorante olhar.
Ergue-se, tenso, no silêncio alto,
O vulto seu, com o que na contenda
Porte dos outros o soe destacar.

Que hálito ‘scuro de ignorado horror
O chamou a acordar? No frio torpor
Da noite nada se ergue e nada fala.
Na vaga tenda a incerta sombra cala.

Que mão de ‘sp’rito ou emissário nume,
Ou próprio Deus, como a uma lança o ergueu
Do chãõ e pôs de pé antes que o seu
‘Spírito perceba porque a altura assume?

Olha em volta, descrendo, e eis de repente
Que, inda que dentro da indecisa tenda,
Sem lugar e sem forma ignoto ente,
Sombra, hálito do abismo, sopro insciente
Se ergue, e os olhos do Rei sentem ter venda.
Porque nenhuma forma ou lugar certo
Cabem ao estranho vulto indescoberto
Que sem presença ‘stá ali presente.

Fitando-o, (se é [que] pode haver
Onde os olhos só olham para achar
Que o que vêem não pode ser olhado),
O Rei, consigo próprio meio irado
Do que o ousado ‘spírito lhe falece,
A ele, que é sempre o peito posto à frente,
Um novo coração bater-lhe sente
E que a contracta pele lhe arrefece.

Porque o que surge do nocturno assombro
E com o incerto vulto desmedido
Lhe parece tomar de frio o ombro
E soar como gelo em seu ouvido,
Não é ente que os olhos hajam visto,
Nem deus que olhos melhores hajam tido
Por momentâneo
Sombra sem forma,
Ou gélido hálito do Orco fundo,
Ou Demogorgon, a cujo atro nome,
De horror sem forma a alma se consome
E os alicerces tremem do amplo mundo.

Então, antes que o Rei decifre em si
O mistério do que é
Oculta voz, que mais ao ‘sp’rito fala
E ao sentido de ouvir, que ao próprio ouvido,
No ar morto, que não toca nenhum ruído,
Fala, e, falando, cala.

 


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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