O que a morte vem desposar
É o que é bom e belo da vida;
      E a dor do gume ao passar
Não é menor que a já conhecida;
      Tudo passa e corre no afundar
Em que a vida deixa a própria vida.

      Contudo esperamos que este morrer
Seja ilusão só, a enganar;
      Que o rio que ora passa a correr
Encontre, inda que longe, um mar;
      Que para além do frágil saber
Uma vida maior vá guardar

      Para sempre, o que parece findar
E partir com o presente momento
      E que talvez, para contrariar
O nosso mais subtil pensamento,
      Conteúdo e forma se vão juntar
E viver, sem tempo, um Eternamente.


1906

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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