Na água a água forma bolhas,
E o regato, rio a brincar,
Leva também coisas e folhas
Como se fosse para o mar.

Obscuras vidas, sois o mesmo
Que as grandes vidas a brincar,
Levais o que levais a esmo,
E o fim é sempre qualquer mar.

Meu coração não tem sossego,
Pensa que tudo é só brincar
De deuses servos de um deus cego
Para quem tudo é sempre o mar.

 

13 - 5 - 1929

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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