Partem em naus para o Sul
Para o Sul — muito longe —
Importa pouco onde vão...
Leva-as o vento e o azul
Do céu cobre-as de pendão...

Partem as naus... Que doença
Tornou do poente os olhares
Dos que fitam sua ida?...
Triste de quem sonha e pensa...
O ocaso doura a partida...

Em outras terras, talvez,
Gozarei ser quem não fui...
Com o sol se vão as naus...
Nos olhos há a viuvez
Dum sonho que se dilui
Em degraus e sem degraus.

Não penses... A noite é branca
No horizonte interrogado...
Flutuam restos das horas...
Quem me dera ser o agrado
Com que sentes o que choras...

Fica no ouvido da vista
Os vultos indo das naus...
Partiriam à conquista...
Descem, arrastando sedas,
Rainhas pelos degraus...

Não sei bem se penso ou sinto
Se ouço ou esqueço... Meu alguém
Coroou-me... Deusa órfã
Sentada em tombado plinto
E esperando quem não vem...

Résteas de horizonte bóiam
À tona de quem não sou... Var.
— Nunca voltaram as naus...
Qualquer cousa em mim errou...
Ninguém ocupa os degraus...

Antes de eu viver a Terra,
Outra seria a tristeza...
— As naus voltarão um dia? —
Quanto sonho em mim erra
E nunca chega à alegria!...

Quando vier a manhã
Só nos restará a esp’rança
Que um dia voltem as naus...
Uma péla de criança
Rola lenta p’los degraus...

16 - 12 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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