1
Vasta é a terra, inda mais vasto o céu.
O dia, a treva o despe e o sol o veste.
Escolhe, e o que escolheres será teu,
Mas não lamentes o que não escolheste.

2
De uma villa romana entre ciprestes
A vida ao longe viu, como a uma estrada.
Seu buscado destino não foi nada.
Vós, deuses, destes; sabeis porque destes.

3
A águia do alto desce para erguer-se.
Leva a presa, deixou o medo. Ai,
O sonho desce só para perder-se...
Águia morta, que desce porque cai.

4
A noite chega com o luar no rasto.
A lua fria sobrevive à noite.
Meu coração não tem onde se acoite.
Lua fria no dia em que me arrasto.

[5]
Meu coração, pudesse a treva sê-lo!
E eu ter a lua por tristeza minha.
Mas a vida é dos outros, é mesquinha
A cousa obtida, □

[6]
Páginas mortas com perfume vago —
Antologia grega... A treva desce
Sobre o mundo, viver é aziago
E o que foi a alma com a sombra esquece.

[7]
Navio que te afastas do meu vulto,
Portos para onde eu cismo, e não vou,
O Destino te livre do insulto
De seres quem eu sou sem ser quem sou.

1 - 10 - 1919

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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