Rei de muitos reis, se um dia,

Se uma hora s mal me atrevo

Ocupar-vos, mal faria,

E ao bem comum no teria

Os respeitos que ter devo.

Que em outras partes da esfera,

Em outros cus diferentes,

Que Deus at agora escondera,

Tanta multido de gentes

Vossos mandados espera.

 


Que sois vs tal, que eles ss,

justo e poderoso rei,

Ou lhe desdais os seus ns,

Ou cortais; porque entre ns

Vs sois nossa viva lei.

 


Onde h homens h cobia,

C e l, tudo ela empea,

Se a santa, se a igual justia

No corta, ou no desempena

O que a m malcia enlia.

 

 

Senhor, que muito atrevida,

E onde ela ns cegos deu,

Cortar coisa devida;

Exemplo o justo de Mida,

Que el-rei vosso av fez seu.

 


Ora eu, que respeito havendo

Ao tempo, mais que ao estilo,

Irei fugindo ao que entendo;

Farei como os ces do Nilo,

Que correm, e vo bebendo.

 

 

A dignidade real,

Que o mundo a direito tem,

Sem ela ter-se-ia mal,

sagrada, e no leal

quem limpo ante ela no vem.

 

 

No falemos nos tiranos,

Falemos nos reis ungidos;

Remedeiam nossos danos;

Socorrem os afligidos;

Cortam pelos maus enganos.

 

 

As vossas velas, que vo,

Dando quase mundo volta,

Raramente contaro

Gente doutro algum rei solta;

Sem cabea o corpo vo.

 

 

Dignidade alta e suprema,

Que h que a no reconhea?

Viu-se em Marco Antnio tema

De pr real diadema

A Csar sobre a cabea.

 

 

Que nome de imperador

Dantes a Csar se dera

Sem suspeita, e sem temor;

Que inda ento muito mais era

Ser cnsul, ser ditador.

 

 

Um rei ao reino convm;

Vemos que alumia o mundo;

Um sol, um Deus o sustm:

Certa a queda, e o fim tem

O reino onde h rei segundo.

 

 

No ao sabor das orelhas,

Arenga estudada e branda;

Abastam as razes velhas:

A cabea os membros manda;

Seu rei seguem as abelhas.

 

 

A tempo o bom rei perdoa;

A tempo o ferro mezinha:

Foras e condio boa

Deram ao leo coroa

De sua grei montezinha.

 

 

s aves, tamanho bando

Doutra liga, e doutra lei,

Por vencer todas voando,

A guia foi dada por rei,

Que o sol claro atura olhando.

 

 

Quanto que sempre guardou

David lealdade e f

A Saul, quanto o chorou!

Quanta maldio lanou

Aos montes de Gelbo!

 

 

Onde cara o escudo

De seu rei, inda que inimigo,

Inda que j mal sisudo

Saindo de tal perigo,

E subindo a mandar tudo.

 

 

O senhor da natureza,

De quem cu e terra cheia,

Vindo a esta nossa baixeza,

Do real sangue se preza:

Por rei na cruz se nomeia.

 

 

Sobre obrigaes tamanhas

Velem-se contudo os reis

Dos rostos falsos, das manhas

Com que lhe querem das leis,

Fazer teias das aranhas.

 

 

Oue se no pode fazer

Por arte, por fora ou graa,

Salvo o que a justia quer;

Senhor, no chamam valer,

Salvo ao que lhes val na praa.

 

 

E por muito que os reis olhem,

Vo por fora mil inchaos,

Que ante vs, senhor, se encolhem

Duns gigantes de cem braos

Com que do, e com que tolhem.

 

 

Quem graa ante el-rei alcana,

E lhe fala o que no deve,

Mal grande da m privana,

Peonha na fonte lana,

De que toda a terra breve.

 

 

Quem joga, onde engano vai,

Em vo corre e torna atrs;

Em vo sobre a face cai:

Mal hajam as manhas ms

Donde tanto dano sai!

 

 

Homem de um s parecer,

Dum s rosto, uma s f,

Dantes quebrar que torcer,

Ele tudo pode ser,

Mas de corte homem no .

 

 

Gracejar ouo de c

De quem vai inteiro e so,

Nem se contrafaz mais l;

Como este vem aldeo,

Que corteso tornar?

 

 

As santidades da praa,

Aqueles rostos tristonhos,

Cos quais este, e aquele caa;

Para Deus, senhor, graa;

Para ns tudo so sonhos.

 

 

E os discursos que fazemos,

Pode ser, no pode ser,

Mais diante o entenderemos:

Agora mortos por ver;

Ento todos ns veremos.

 

 

Senhor, hei-vos de falar

(Vossa mansido me esfora)

Claro o que posso alcanar;

Andam para vos tomar

Por manhas, que no por fora.

 

 

Por minas trazem suas azes

Os rostos de tintureiros,

Falsas guerras, falsas pazes;

De fora mansos cordeiros;

De dentro lobos roazes.

 

 

Tudo seu remdio tem

E que assim bem o sabeis,

E ao remdio tambm;

Querei-los conhecer bem,

No fruto os conhecereis.

 

 

Obras, que palavras no:

Porm, senhor, somos muitos,

E entre tanta multido

Tresmalham-se-vos os frutos,

Que no sabeis cujos so.

 

 

Um que por outro se vende,

Lana a pedra, e a mo esconde;

O dano longe se estende;

Aquele a quem di e entende,

Com s suspiros responde.

 

 

A vida desaparece,

E entretanto geme e jaz

O que caiu: e acontece,

Que dum mal, que se lhe faz,

Outro mor se lhe recresce.

 

 

Pena e galardo igual

O mundo a direito tem,

A uma regra geral;

Que a pena se deve ao mal,

E o galardo ao bem.

 

 

Se alguma hora aconteceu

Na paz, muito mais na guerra,

Que a balana mais pendeu,

Faz-se engano s leis da terra;

Nunca se faz s do cu.

 

 

Entre os lombardos havia

Lei escrita, e lei usada,

Como se sabe hoje em dia;

Que onde a prova falecia,

Que o provasse a espada.

 

 

Ali no campo s singelas,

Enfim morrer ou vencer,

Fosse qual quisesse delas:

No era melhor morrer

A ferro, que de cautelas?

 

 

Ao nosso alto e excelente

Dom Dinis, rei to louvado,

To justo, a Deus to temente,

Falsa e maliciosamente,

Foi grande aleive assacado.

 

 

Ele posto em tal perigo,

Rei que rei fez e desfez;

Contra o malicioso inimigo,

Foi-lhe forado esta vez

Chamar-se a esta lei que digo.

 

 

E juntamente s cidades

A quem cumpriu de acudir,

Pelas suas lealdades:

Que to ms so as verdades

s vezes de descobrir!

 

 

Neste tempo quem mal cai,

Mal jaz; e dizem que luz

Por tempo a verdade sai;

Entretanto pem na cruz

O justo, o ladro se vai.

 

 

Da mesma casa real,

Em verdade um grande infante

Tratado s escuras mal,

Bradava por campo igual,

E inimigos claros diante.

 

 

Enfim vendo a indstria e arte

Quanto que podem, chamou

Um leal conde de parte;

S com ele se apartou;

Foi viver a melhor parte.

 

 

Onde tudo certo e claro,

Onde so sempre umas leis;

Prncipe no mundo raro,

Sobre tanto desamparo

Foram trs seus filhos reis.

 

 

senhor! quantos suores

Passa o corpo e alma em vo

Em poder de envolvedores!

Enfim, batalhas que so?

Salvo desafios mores.

 

 

Com a mo sobre um ouvido

Ouvia Alexandre as partes,

Como quem tinha entendido,

Por fazer certo o fingido,

Quantas que se buscam d'artes.

 

 

Guardava ele o outro inteiro

A parte no inda ouvida:

No vai nada em ser primeiro:

Quem muito sabe duvida;

S Deus o verdadeiro.

 

 

A tudo do novas cores

Com que enleiam os sentidos:

Ah maus! ah enliadores!

Ante os reis vossos senhores,

Andais com rostos fingidos!

 

 

Contais, gabais, estendeis

Servios e lealdades:

olhai que no os daneis:

Falai em tudo verdades

A quem em tudo as deveis.

 

 

Senhor, nosso padre Ado

Pecou, chamou-o o juiz,

Tenha que dizer ou no;

E sua fraca razo,

Porm livremente diz.

 

 

Sempre foi, sempre h de ser,

Que onde uma s parte fala,

Que a outra haja de gemer:

Se um jogo a todos iguala,

As leis que devem fazer?

 

 

Vidas e honras guardais

Debaixo de vosso amparo

De estranhos e naturais;

Suspiram, no podem mais,

E s vezes no muito claro.

 

 

Tambm aps aquela arde

A cobia da fazenda

Por mais que se vele e guarde;

Tinha ela melhor emenda

Se no fosse mal e tarde.

 

 

Geralmente presunosa

Espanha, e disso se preza,

Gente ousada e belicosa,

Culpam-na de cobiosa:

Tudo sabe vossa alteza.

 

 

Pensamentos nunca cheios,

No tm fundo aqueles sacos;

Inda mal, porque tm meios

Para viver dos mais fracos,

E dos suores alheios.

 

 

Que eu vejo nos povoados

Muitos dos salteadores,

Com nome e rosto de honrados?

Andar quentes e forrados

Das peles dos lavradores.

 

 

E, senhor, no me creiais

Se as no acham mais finas,

Que as de lobos cervais,

Que arminhos, que zebelinas,

Custam menos, cobrem mais.

 

 

Ah senhor! que vos direi

Que acode mais vento s velas;

Nunca se descuide o rei;

Que inda no feita a lei,

J lhe so feitas cautelas.

 

 

Ento tristes das mulheres,

Tristes dos rfos coitados,

E a pobreza dos misteres,

Quem nem falar so ousados

Diante os mores poderes.

 

 

Os quais quem os assim quer,

Quem os negocia assim,

Que far quando os tiver?

Nossos houveram de ser;

Tomaram-nos para si.

 

 

Ora j que as conscincias

O tempo as levou consigo,

Venhamos s penitncias,

Senhor, se eu vira castigo

Boas so as residncias.

 

 

Mas eu vejo c na aldeia

Nos enterros abastados,

Muito padre que passeia,

Enfim, ventre e bolsa cheia

Absoltos de seus pecados.

 

 

Se se ho de reconciliar,

Uns cos outros tm seu trato;

Basta-lhes s acenar:

No nos fazem to barato

Ao tempo de confessar

 

 

Senhor, esta vossa vara

Em quais mos anda, tal :

A boa ave mui rara;

Sabei que esta nunca cara,

Que seja muita a merc.

 

 

Livre de toda cobia,

A Deus temente, e a vs,

Sem respeito, e sem preguia,

Vara direita sem ns,

Se quereis que haja justia.

 

 

Tomai, senhor, o conselho

Do bom Getro ao genro amigo:

verdade, evangelho,

(Como disse aquele velho)

Humildemente vos digo.

 

 

Que estas leis justinianas,

Se no h quem as bem reja,

Fora de paixes humanas,

So um campo de peleja

Com razes francas e ufanas.

 

 

Morre o nobre Conradino

Co parceiro em tudo igual:

Cada um de morte indino,

Pelo pesado ou malino

Doutor, que interpreta mal.

 

 

Diz o texto: "O sangue cesse;

Por batalha a guerra finda."

Vem com grosa outro interesse;

Diz que ande o cutelo, ainda

Que em priso certo o tivesse.

 

 

Mas, senhor, melhor o temos

Sendo vs o que mandais:

Todos ns revolveremos,

Os que tanto no podemos,

E aqueles que podem mais.

 

 

Que por amor se encadeia,

(No nome errado ou novo)

Se por livre se nomeia;

No tem rei amor de povo

Tanto, em quanto o mar rodeia.

 

 

Aqui no vemos soldados;

Aqui no soa o tambor;

Outros reis, os seus estados

Guardam de armas rodeados,

Vs rodeado de amor.

 

 

Achar-nos-o as divinas

No meio dos coraes

Entalhadas vossas Quinas:

Estas so as guarnies

De vs, e dos vossos dinas.

 

 

Tem na verdade o francs

A seu rei amor aceso;

No lho nega o portugus;

Porm traz guarda escocs,

Que no de pouco peso.

 

 

O padre-santo assim faz,

A quem certo se devia

Alto assossego, alta paz;

Mas tem guarda, todavia,

Com que vai seguro e jaz.

 

 

Que se pode ir mais avante,

Com quanto alcana o sentido

Sem ferro, ou fogo que espante:

Com duas canas diante

s amado, e s temido.

 

 

Uns sobre os outros corremos

A morrer por vs com gosto:

Grandes testemunhas temos

Com que mos, e com que rosto

Por Deus, e por vs morremos.

 

 

Outrossim para os reveses

(Queira Deus que no releve)

Em vs tm os portugueses

O bom rei de atenienses

Codro, que outrem algum no teve.

 

 

Do vosso nome um gro rei

Neste reino lusitano,

Se ps esta mesma lei,

Que diz o seu pelicano:

Pola lei, e pola grei.

 

 

Mas eu sou duns guarda-cabras

Que se vo de ponto em ponto;

Querem s duas palavras;

Que dos gados, que das lavras

Depois no tem fim, nem conto.

 

 

Assim que seja aqui fim;

Tornem as prticas vivas;

Perdestes meia hora em mim,

Das que chamam sucessivas

Estes que sabem latim.

 

Sá de Miranda
CARTA A EL-REI D. JOãO
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