(Rimsky Korsakov)

Conta-me contos até não haver
Mais em mim que morrer...
Até que num espaço entre vida e morte
Se passe a minha sorte...

Conta-me contos, lendas, suaves, tanto
Que seja(m) uma só cousa
Elas e o seu indefinido encanto...

Conta-me contos como sequiosa
E que ao ouvir-te eu deixe
De ter □

Não tenha já casa, nem □, nem pais,
A vida é real de mais,
Mas, tu contando, morre tudo; fica
Só a tua voz rica
De contar tanta seda e pedraria
À minha alma que □  se extasia...

Ah, conta, conta, e a vida esqueça em tudo!
Conta, meus gestos tragam o veludo
De serem só inadequadamente...
Conta... E que ouvindo-te, sem querer,
Como uma música que vem, meu ser
Passe de pertencer ao mundo vão
E fique a ser eternamente
Uma figura num conto teu

Qualquer cousa em teu mundo
Viva só na tua imaginação.

Ah, mais vale sonhar estar-te ouvindo
Que ouvir-te! Conta... Vindo
De ti, os contos passam devagar
E a sua pompa é todo o céu e o ar...

Conta... O silêncio abre alas de cetim
Do teu conto até mim...
Um séquito de sombras é de prata
No que em ti se desata
De pertencer-te e vem até aos dedos
Com que desfolhas esses vãos segredos...

O sultão escutava-te eu a ouvir...
Ouvi a tua voz só por possuir
O sentido suposto do teu conto...
Tudo era a música que te narrava...
As tuas figuras □

Scheherazad — quantas cousas
Ficaram por contar que tu contaste...


□ espaço deixado em branco pelo autor

10 - 1 - 1916

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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