A José A. S. R. de Castro

 

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que nesta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do túmulo descendo.

Em se ela anuveando, em a não vendo,
Já se me a luz de tudo anuveava
Despontava ela apenas, despontava
Logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gémea da minha, e ingénua    e pura
Como os anjos do céu (se o não sonharam...)
Quis mostrar-me que o bem pouco dura!

Não sei se me voou, se ma levaram;
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que ainda em vida não choraram...

… … … … … … … … … … … … … … … … … … … … …

De dia a estrela de alva empalidece;
E a luz do dia eterno te há ferido!
Em teu lânguido olhar adormecido
Nunca me um dia amanhecesse!

Foste a concha da praia! A flor parece
Mais ditosa que tu! Quem te há partido,
Meu cálix de cristal onde hei bebido
Os néctares do céu... se um céu houvesse!

Fonte pura das lágrimas que choro,
Quem tão menina e moça desmanchado
Te há pelas nuvens os cabelos de oiro;

Some-te, vela de baixel quebrado!
Some-te, voa, apaga-te, meteoro!
É só mais neste mundo um desgraçado!

… … … … … … … … … … … … … … … … … …


A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Onda que o vento nos mares.
Uma após outra lançou,
A vida — pena caída
Da asa de ave ferida —
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou!

… … … … … … … … … … … … … … … …

Ah! quando numa vista o mundo abranjo.
Estendo os braços e. palpando o mundo,
O céu, a terra e o mar vejo a meus pés,
Buscando em vão a imagem do meu anjo.
           Soletro à frouxa luz de um moribundo
Em tudo só: Talvez!...
Talvez! —é hoje a Bíblia, o livro aberto
Que eu só ponho ante mim nas rochas quando
Vou pelo mundo ver se a posso ver;
E onde, como a palmeira do deserto,
Apenas vejo aos pés inquieta ondeando
           A sombra do meu ser!

Meu ser... voou na asa da águia negra
Que, levando-a, só não levou comigo
           Desta alma aquele amor!
E quando a luz do sol o mundo alegra,
Cristalina nocturna a sós comigo
           Abraço a minha dor!

Dor inútil! Se a flor que ao céu envia
Seus bálsamos se esfolha, e tu no espaço
Achas depois seus átomos subtis,
Ainda hás-de ouvir a voz que ouviste um dia...
Como a sua Leonor ainda ouve o Tasso...
           Dante, a sua Beatriz!

— Nunca! responde a folha que o outono,
Da haste que a sustinha a mão abrindo,
           Ao vento confiou;
— Nunca! responde a campa onde do sonho
E quem talvez sonhava um sonho lindo.
           Um dia despertou!

Nunca! responde o ai que o lábio vibra;
— Nunca! responde a rosa que na face
           Um dia emurcheceu:
E a onda que um momento se equilibra
enquanto diz às mais: Deixai que eu passe!
           E passou e... morreu!


In Elegias
João de Deus
A VIDA
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