Como quando do mar tempestuoso
o marinheiro, lasso e trabalhado,
de um naufrgio cruel j salvo a nado,
s ouvir falar nele o faz medroso,

e jura que, em que veja bonanoso
o violento mar e sossegado,
no entre nele mais, mas vai, forado
pelo muito interesse cobioso;

assi, Senhora, eu, que da tormenta
de vossa vista fujo, por salvar-me,
jurando de no mais em outra ver-me:

minha alma, que de vs nunca se ausenta,
d-me por preo ver-vos, faz tornar-me
donde fugi to perto de perder-me.

Luís Vaz de Camões
[COMO QUANDO DO MAR TEMPESTUOSO]
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