Anos e anos do que não foi eu
Vivi recluso no ser que era o meu.
Anos e anos de quem nunca fui
Vivi submisso do meu ser que flui.

Agora que a viagem é regresso
Ao que deveras sou, deveras peço
Que eu tenha num momento de viagem
Remorsos de mim mesmo ou da paisagem.

Porque, por muito que se a alma tenha
Afastado do mar que as praias banha
Das sua solidão universal,
Volta, de noite, sem que o luar venha,
Ali, num passo antigo e natural.

 

8 - 8 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
« Voltar