Fito-me frente a frente, e nesta hora,
Em que, à minha dor essencial constante,
Minha alegria é um país distante,
E a minha vida um mendigo que chora,

Nesta hora calma porque nela abdico,
Ainda que apenas pelo seu momento,
De tudo quanto quis e quanto (in)tento
E da minha pobreza só sou rico,

Eu vejo nesta hora quanto errei,
Quando me dei ao falso do meu ser
E quanto tempo pus em me perder
Daquilo para que nasci e amei.

Vejo-me ali traído e despegado
Onde eu pusera a amizade e a crença,
E sinto no meu ser como uma doença
O peso do meu vão □ passado.

Vejo-me escravo do eterno engano
De ter acreditado que alguém era
O amigo □ por quem meu ser espera
Desde sombras de mim na infância.

E, como alguém que despertou aonde
Estranha o quarto e o lado da janela,
Eu vejo a vida tal qual é, aquela
Dura dor que já nada de mim ‘sconde

E penso que tão pouco mereci
Dentro de mim, perante Deus, que a minha
Esperança fosse feita tão mesquinha
Pelas desilusões que recebi.

Minha alma é grande e merecia mais
Que o desprezo dos outros e o meu engano
Em me ter dado aos banais, menos dano
Que o desprezo □ dos banais...

Mereci mais de Deus, pela grandeza
Da minha alma, de que ele, ao destinar,
Me fizesse em tais almas confiar
Que só poderiam dar-me vil tristeza.

Eu mereci por certo que outra sorte
Me fosse dada que esta sorte baixa
Como um antigo cavaleiro acha
Reles que tenha por seu fim a morte.

Não no combate, mas da doença em meio
De uma estrada, ou na aldeia que atravessa
Ah, por pouco, senhor, que eu vos mereça
Mereço melhor fim ao meu enleio!

Que necessário e □ castigo
Foi mister que eu colhesse à minha fé
Que ao mesmo tempo, com a dor que é
Nobre, me desse o amigo seu inimigo?...

Porque, tendo-me feito alma de Rei
E dado a íntima esperança dum reinado
Me fizestes ser tal que fui deixado
Como um mendigo pela minha grei?

Porque não ter-me dado com o alto
Pensamento □ que me feria
Essa segura □ que não confia
E na alheia grandeza.

 

21 - 12 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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