arrumo papéis escritos para o último livro
com um tigre prodigioso cravado no ombro

mantenho os dedos sujos de tinta há vários dias
e sempre que não consigo escrever fumo devagar
encontro o tempo necessário para não fazer nada

de meu corpo corroído pela febre ergo-me
atravesso a sala
desligo a televisão que nunca vejo

junto à janela aberta
a mão tece
a camisola em lã mal cardada

um vestígio de dor envolve-me
que acontecerá à minha sombra?
terei tempo de assobiar à morte?
terei tempo
de levar comigo a roupa de que mais gosto?
que horas são? além
perto da mãe

talvez não seja só febre isto que me assola
pode ser um indício de peste
qualquer mal que alastra pela mansa noite
e contamina os dias fechados na desolação

não consigo imaginar que se morre sozinho
sem sombra sem doenças sem sangue
aterroriza-me pensar que não poderei levar
a camisola tecida pela mãe
na interminável luminosidade do mar

 


In O Medo
Al Berto
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