Minha vida é cansada, insatisfeita,
Neste à beira-de-ser, sempre frustrada,
Pois do querer a força foi negada
E à renúncia a vontade nunca afeita;
          Saciada, por nunca saciada,
Na moção do mover sempre sustida,
No sonho, dos seus próprios, abatida —
Mudada seja ou por Deuses levada.
          Pois o vazio do tempo em sucessão,
Desertos num deserto acumulados,
Já mina, do sonhar, o prosseguir
          E mata, do pensar, a própria acção
Nos actos previamente indesejados —
Duas vezes levado a desistir.

 


In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000
Fernando Pessoa
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