Há música. Tenho sono.
      Tenho sono com sonhar.
‘Stou num longínquo abandono
      Sem me sentir nem pensar.

A música é pobre. Mas
      Não será mais pobre a vida?
Que importa que eu durma? Faz
      Sono sentir a descida...

Que inteligência há-de dar-se
      Ao princípio da absorção?
Há música. Antes chorar-se
Sem que □

Aventura inexequível,
      Congruência com não ser.
Meu coração no desnível,
      Meu cansaço sem ceder.

Meu paraíso perdido.
      Meu rebanho abandonado!
Vou no séquito abolido
      Como um pajem exilado.

25 - 3 - 1928

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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