Todas as minhas sensações são Deus.
Transbordo transcender-me.
Pisando a terra dura os passos meus
Sinto Deus pertencer-me
Piso com passos de alma os vastos céus...

Cesso de me conter hora após hora
Constantemente sou mais do que sou...
O passado ou o futuro é sempre agora
Para o Eterno onde o meu ser-Deus mora
Para o Deus onde sempre estou...

Profuso de diariamente ser-me,
Prolixo de ser Deus esquecido em mim...
Estou sempre no fim
De definir-me por não-pertencer-me...
As minhas horas, rosas de perder-me
Perfumam de Infinito o meu jardim.

Saibo-me a horas imortais se vejo
A transparência Deus da minha vida
Meu conceito de mim é um desejo
Que Deus tem da hora ser medida...
No ar azul-Deus vicejo
E imita Deus a flor de haste vivida

A palmos corpos não me meço
A sentimentos, alma, não me cinjo...
Caibo nos lugares de eu aonde me esqueço
E, céu longínquo, tinjo
De azul os lugares... Finjo
Ser □ e, □
No horizonte de Deus eu amanheço.


□ espaço deixado em branco pelo autor

 

 

18 - 9 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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