Vós que, crentes em Cristos e Marias, 
Turvais da minha fonte as claras águas 
 Só para me falardes
 Que há águas de outra espécie 

Banhando prados com melhores horas 
Dessas outras regiões pra que falar-me 
      Se estas águas e prados 
      São de aqui e me bastam? 
Esta realidade os deuses deram 
E para bem real a deram externa. 
      Que serão os meus sonhos 
      Mais que a obra dos deuses? 
Deixai-me a Realidade do momento 
E os meus deuses tranquilos e imediatos 
      Que não moram no Vago 
      Mas nos campos e rios. 
Deixai-me a vida ir-se pagãmente 
Acompanhada pelas avenas ténues 
      Com que os juncos das margens 
      Se confessam de Pã. 
Vivei nos vossos sonhos e deixai-me 
O altar imortal onde é meu culto 
      E a visível presença 
      Dos meus próximos deuses. 
Inúteis procos do melhor que a vida, 
Deixai a vida aos crentes mais antigos 
      Que a Cristo e a sua cruz 
      E Maria chorando. 
Ceres, dona dos campos, me console 
E Apolo e Vénus, e Urano antigo 
      E os trovões, com o interesse 
      De irem da mão de Jove.

9 - 8 - 1914

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
[VÓS QUE CRENTES EM CRISTOS E MARIAS ]
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