I

Maria, linda Maria,
Contigo me deitarei
Minha eterna moradia
Dos teus braços eu farei.’

Canta alto, sino da torre!
Com risos te pagarei.
Os seus lábios me sorriram
Os seus lábios beijarei.

Sua voz é melodia
Com ela me enganarei
Numa noite d’alegria
Seus seios conhecerei.

Canta-me, sino da torre
Cantos que recordarei.
Quando ela for a deitar-se
À sua janela irei.

Dir-lhe-ei: «linda Maria
Nos teus braços passarei
Noite e dia, noite e dia;
Nos teus braços morrerei.»

Sino da torre, o que dizes
De noite lhe contarei
Seu cabelo sobre mim
Ao luar desprenderei.

Quando a vi, ela sorria
Qual dizer não saberei...
E por ela o que faria?
E por ela o que farei?

Sino da torre não pares
Com ela não bailarei
Sua cintura, escondidos,
Ao luar lhe enlaçarei.

«Maria, linda Maria!»
(Assim mesmo lhe direi)
Se de alegria chorares
O teu pranto beberei.

Sino da torre, canta alto
Que eu nunca assim te ouvirei
De noite à sua janela
Sua sombra espreitarei.

«A minha mão está fria
Do muito que te amarei,
Maria, linda Maria,
No teu seio a aquecerei.»

Canta alto, sino da torre
Nos seus braços dormirei
E desta noite em diante
Consigo me esquecerei.

[II]

Morta

Como és bela morta e fria
Meus olhos te chorarão
Com tristeza, noite e dia
Em sangue se tornarão.

Dobra o sino na alta torre
Os seus sons te embalarão
E a tua morte com dobres
□ lamentarão.

Meus lábios (quem n’o diria?)
Nunca mais te beijarão,
Nem na tarde lenta e fria
Teu cabelo afagarão.

Dobra o sino sem piedade —
Seus dobres me gelarão.
Hoje à tarde — e o sol é calmo! —
Na cova te deitarão.

O que esse olhar me dizia
Como é que t’o tirarão?
Esse amor que em ti havia
Onde é que o enterrarão?

E dobra o sino da torre —
Seus prantos confrangerão,
Quem ouvir o dó do sino
E os que o ouvem não amarão!

Decomposta, dia a dia,
Os vermes te comerão
A boca que me sorria
Os vermes deformarão.

Dobra o sino sobre a vila
Os corações se erguerão
Numa ânsia, e os que sobem
Tua infância lembrarão.

Meus ouvidos voz que ouviram
Em sonho te ouvirão
Meus lábios: «linda Maria»
Inda em sonho chamarão.

Dobre do sino d’alta torre
Muitos dos que te ouvirão
Ao teu lado hirto e calado
Em breve me levarão.

Funda cova negra e fria
Ai, ali te enterrarão.
Quão brando o sol alumia
E a ti te esquecerão.

Dobra sino da alta torre
Contigo me enterrarão
E só então os meus olhos
De chorar-te deixarão.

 


19-11-1908

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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