I

          — «O que é a fama após a morte?
Uma vida sem vida, caro rapaz,
Uma vida que se vive e não apraz,
Um nome escrito à esquina duma rua,
Um busto que podemos espezinhar,
Um vento leve que a tempestade destrua:
Essa a fama póstuma. Maldito quem se agastar
Só por tê-la; e quem por ela morrer, Marino,
Se matará duas vezes. Por isso escuta...

II

É bom ser amado por toda a gente,
Melhor ainda o amor só de alguém;
Mas não há na vida maior amargura
          Do que não ter o amor de ninguém.


III

Nunca as negras nuvens serão tão densas
          Que não haja um azul para vislumbrar;
Nunca o céu tão escuro que um raio luminoso
          Através dele não possa passar.

IV

Nada é mais frio do que as cinzas são
          E contudo o lume ali se ateou;
A noite que envolve uma única estrela
          Mais negra parece a quem a olhou.

v

CANÇÃO DO OBSCURO

Que me interessa a fama do grande e laureado?
         Porquê olhar os astros que brilham além?
Mesmo sendo humilde, pobre, ignorado
         Se tenho amigos poucos, de inimigo ninguém.

VI
                          «Não digas isso.
O ser mais desprezível é humano e sente
Tal como tu; tem também cabeça e coração;
Pode imaginar, sofrer, rir ou chorar;
Como tu ama e odeia, e é como tu
Forte nas virtudes, fraco nos defeitos.
E nada distingue o alto ou o baixo
Salvo o nascimento, acaso oscilante;
Quanto ao coração, Marino, seria bom
Que os nobres tivessem corações plebeus.
Mar. Disseste a verdade e reconheço o erro;
Se os poderosos fossem mais humildes
Teria Satã menos seguidores.

VII

— Quem és tu? Peço-te que fales e não fiques aí
Como se teu cérebro estivesse tolhido.
Mar.     Quem sou eu?
Perguntas bem, mas não sei responder;
Há um mês — uma semana, podia ter respondido
Alegre e prontamente — «Sou Marino... »
Mas agora não consigo falar;
A razão sobrepõe-se à minha voz
E em vez de a mover, fá-la suster.
Quem sou eu?
Decerto perguntas bem. Tantas vezes
Me pus essa questão, sem que a razão
Pudesse dar resposta ao que dizia.
(…)
Tão confusa a mente em si rodopia
Que o que sabe não consegue dizer
E o que exprime não condiz com o que sabe.
Oh, que louco fui ao pensar que a lógica
Poderia meu coração acalmar
E que a razão abrandaria o sofrimento;
Que o prazer podia abafar e esquecer
Do coração o mais fundo tormento;
Que o vinho e o sono podiam sedar
O que eles mesmos apagar não podem;
Como posso usar a razão, se não existe?
Como pensar, se quando prendo a mente
A um objecto, outro vem mostrar?
Se a memória me trai e se recusa
A revelar segredos que em si guardou?
Disseste que sou Marino... Estarás certo?
Esclarece-me, pois não posso explicar
As mais simples questões que a razão indaga.
Um amigo passou hoje por mim e me falou
Dizendo: «Marino, como tu mudaste!»
Olhei-o de frente e, em vez de o ver,
Vi um negro abismo, enorme e horrendo,
E soube que era a minha mente que estava a olhar.

VII

Vós, ó espíritos da noite terrível,
Ó fantasmas da eterna lonjura,
Espectros do tempo, que tendes lugar
Onde a luz humana não pode chegar!
Escutai a canção da minha amargura.

IX

Seu grande poder era incompleto, pois de facto
Se tinha o sentido faltava-lhe o tacto;
Tendo talento, gastava a inspiração
Como o boateiro da sua geração;
Ninguém estava livre da sua dentada,
E, querendo, a calúnia era tão bem usada
Que a difamação num instante corria.
Quem, seus poderes, então negaria?

x

Aqui jaz o velho Jones, que à luz eterna passou;
Todo o dia ele preguiçava e toda a noite dormia,
Pois do tempo que foi seu o seu descanso gozou.

XI

Marino: O mistério de tudo — ele está à nossa volta
Está por baixo, por cima, em toda a terra,
No céu inteiro e mais — será, querido Vincenzo,
Que não está aqui dentro, em nosso coração?
A resposta está também escrita em toda a terra,
No céu, por todo o lado, mas só nos falta saber
Em que língua é que está escrita.
Essa nunca saberemos.
Vin:                     Uma cifra imensa
Da qual a chave é a morte.

XII

Vincenzo: Na verdade não há
Coisa maior que a humana mente:
Todos os mundos que existem ela visitou há muito,
Todos os mundos que não existem há muito visitou,
Todos os mundos por vir também visitou já.
Maríno: Contudo quanto lhe falta e que imperfeita
Aparece em cada pensamento! Então, amigo,
Se a tua mente domina o espaço, fá-la captar
Toda a grandeza do espaço envolvente
No qual as nuvens são só grãos de pó,
O sol uma vela, a lua um fósforo;
Mas se a tua mente tem fronteiras, fá-la prender
Tudo isto e dizer onde o espaço tem seu fim.
Fá-la encontrar os limites do reino da noite e o extremo
Dos do dia. Fá-la só pensar, ínfima parcela,
E sentir a grandeza ilimitada do que a cerca,
Simbólica do seu Deus e incontável,
Para além do entendimento: vista, imaginação
Superando todos os homens.
E se a tua mente conhece o número, fá-la contar
Os mundos inumeráveis que enfeitam o ar silente
E as indizíveis estrelas, em constelações brilhantes,
Cintilando pela noite em alegria dormente.
Se é profunda a tua mente, então fá-la penetrar
Na matéria da terra e distinguir o que está
No seu âmago. Se a tua mente sabe pensar
Então fá-la meditar na sua própria existência
E, pondo a mão na cabeça, exclamar
«Isto é uma cabeça» ou, pondo-a no coração,
«Aqui está um coração» e olhar os membros
Sabendo o que tudo significa. Então descobrirás
Que o homem é tão estranho na sua existência,
Tão raro no seu fado, tão obscuro na origem,
Que ante coisas tão simples perdemos a voz.
Tão ridículo, tão bizarro, tão real, irreal
E contudo tão triste! Como exprimir tudo isto?
Tivesse eu mil línguas, mil maneiras
De expressar meu pensar e uma ideia só a dizer
Inda a mente me oprimiria ante um pensamento
Que amaldiçoa a palavra. 
                                           Sim, por vezes acho
Que vou ter a resposta de tudo; só que então
Algo demasiado horroroso em si aparece,
Uma loucura que alastra, uma ausência de luz,
E de novo emudeço.
                                            Quando medito sobre
Este espaço imenso, silencioso, interminável,
Sinto a vertigem do viandante que olha
Arrebatado sobre o fundo de um abismo,
Em escuro envolvido, donde se soltam terríveis sons —
Assim é estridente na minha alma o som solene
Do pensamento em si pesado.
Eu te dou algo para pensar, mas retém uma só
Palavra — uma pequena palavra, amigo — «Deus»
E diz-me tudo o que nela está. Ou então não digas
E pensa somente.

XIII

Menestrel: Tão bem te conheço, Giles Attom, que tu
Não te conheces a ti tão bem quanto eu;
Tua infância e juventude, tua idade adulta
Tudo me é conhecido; teus pais igualmente
Conheci muito bem; até da tua vida
Conheço os segredos — tuas paixões, cuidados,
Teus amores e desgostos, tuas raivas e calmas,
Chamas e friezas; sei do teu presente
E, de igual modo, o teu futuro conheço.
Giles: Como tal? Quem és e o que és para falar assim?
Para te gabares de tudo conhecer?
Men:                              Não interessa
Quem sou e o que sou. Basta dizer-te...

XIV

Marino: Recua, recua, recua! Ó mar traiçoeiro,
                         volta para trás!
Não vês que sou Marino? Volta para trás!
Como pudeste vir tão silencioso ao encontro
Da minha própria morte? Contudo vê, Mestre,
Há um caminho ali em baixo — não vês
Ali em baixo, ali, vê como a água foge!
Enfim, é um rochedo! Ah, vou trepar
Até à rocha escarpada; certamente aí é seguro...
Ai de mim — escorrego — afasta-te, mar terrível!
Não vês que estou aqui — eu, Marino —
Não vou agora morrer — volta para trás, volta!
(Amaldiçoa tudo. Vê demónios e rostos. Luta
para subir ao rochedo abrupto)...
Esta é a última esperança de extremo desespero!
(...)
Os seus braços agarram-me e sinto-me cair!
Mestre, socorro! Maldito sejas! Socorro!
(… )
Vou morrer! Morrer! Maldito sejas, Mestre!
Maldito o Inferno, o Céu, três vezes maldito seja Deus!

xv

És feliz por morrer tão cedo! Não podes saber
Dos vis e humanos prazeres, medos e cuidados
E o que o amor e o ódio aqui podem fazer
De horrores, tormentos, suspiros de alma exalados
E de lágrimas inúteis de vã aflição.
Nunca as desgraças humanas teus olhos magoarão,
Nem dúvidas horríveis sobre o desconhecido,
Nem jamais lamentarás a juventude inocente,
Nem terás a alma e o pensamento perdidos
Para além dos labirintos duma confusa verdade,
Nem a alma buscará em vão pena e piedade.
Ah, tu nunca saberás o que é forçar
Um espírito à língua e uma alma dizer,
Quando cada novo sentir traz um pesar
E o pensamento seu fulgor não quer ceder
Quebrando, sem controlo, os limites do ser.
Nem sentirás sequer a sede de algo mais alto
Que as coisas terrenas, só belas para gozar;
Nunca te fará falta um amor celestial
Nem pedirás à terra o que não pode dar.

XVI

Pequena é a mágoa que em choro desvanece;
O choro, quando vem, marca o fim da amargura:
Nota que a tormenta já desaparece
Quando a chuva apaga do ar a secura.

As lágrimas pagam os prazeres que vão
E os prazeres por vir (se é que eles virão);
(…)

XVII

Um amor sem esp’rança sufoca um outro amor,
Um amor perdido, outro faz olvidar,
E embora eterna te pareça a dor,
Triste Mãe, um dia deixarás de chorar!

O tempo a dor cura, e assim vais sentir
Se o tempo passar e vier a alegria;
Esquecerás e voltarás a sorrir,
Esquecerás a dor que tiveste um dia.

Quando em revoada a noite faz vir
Suas negras asas e te faz chorar,
Estranhas se um dia já pudeste rir
E alegres piadas e canções escutar.

Assim é e está bem: p’ra sempre não dura
Uma coisa só, nesta humana mente;
A noite dissolve choro e amargura
Que voam com as sombras como palha ao vento.

Mas melhor assim, deixar esta vida
Sem ter conhecido humanos agrados;
Sem saber que é breve e mal distribuída,
Sem ter tido à vista os sonhos dourados.

Morte! a própria palavra é como um lamento
No escuro fantasmal, quando tudo a sós.
O que implica ou diz é suficiente
P’ra gelar a razão e suster minha voz.

XVIII

A Morte veio e levou-o de mim.
(...)
Acho que (de mim tão amigo e chegado)
Nesta aparência de mortal frialdade,
Senti sobre a face o sopro abafado
Do grande vórtex da eternidade.

Tão perto, que a Morte pareceu tocar
Meu corpo tremente; triste me parece
Que a Morte junto a mim não vai voltar
Salvo por mim mesmo.. .
(...)
Alguns morrem na batalha sangrenta,
Alguns no cadafalso, outros esfaqueados,
Outros dão o ser sem qualquer contenda,
Mas os mártires por outros são imolados.

Morrem alguns no leito de agonia,
Noutros funda angústia os arranca à sorte,
Uns partem sem ver quão belo é o dia,
Outros bem tarde. Mas morte é sempre morte.

XIX

O amanhã será hoje,
     O hoje p’ra sempre passado;
Do ontem o sol que foi
     Já esteve um ano afastado.
E o ontem foi amanhã;
Dias de alegria ou dor
Que um século de nós estão
Inda distantes, ao virem
Para sempre morrerão.

XVIII

A Morte veio e levou-o de mim.
(…)
Acho que (de mim tão amigo e chegado)
Nesta aparência de mortal frialdade,
Senti sobre a face o sopro abafado
Do grande vórtex da eternidade.

Tão perto, que a Morte pareceu tocar
Meu corpo tremente; triste me parece
Que a Morte junto a mim não vai voltar
Salvo por mim mesmo...
(…)
Alguns morrem na batalha sangrenta,
Alguns no cadafalso, outros esfaqueados,
Outros dão o ser sem qualquer contenda,
Mas os mártires por outros são imolados.

Morrem alguns no leito de agonia,
Noutros funda angústia os arranca à sorte,
Uns partem sem ver quão belo é o dia,
Outros bem tarde. Mas morte é sempre morte.

XIX

O amanhã será hoje,
     O hoje p’ra sempre passado;
Do ontem o sol que foi
     Já esteve um ano afastado.
E o ontem foi amanhã;
Dias de alegria ou dor
     Que um século de nós estão
Inda distantes, ao virem
Para sempre morrerão.
O tempo dito moderno
A outro dará lugar...

Coisas terrenas de dor,
Ireis vós todas passar?
Deve o prazer e o amor...

xx

Tu que entre riso e canção
Vives em salão ou praça,
Lembra a triste multidão
Que em desespero se arrasta.
Entre danças e cantigas
De corpo e mente embalados,
Pensa em quantos te rodeiam
À pena e à dor confinados.
A última virtude de um vilão
É a piedade: sente-a então!...

XXI

Alto na colina, na sombra escondido,
Reina a beleza de um castelo antigo
Com torres gastas, vacilando ao calor
E cujos muros em ruínas, vazios,
Riem da beleza do mundo exterior
E sob o próprio sol ficaram frios;
Pois de que vale se o ouro do sol
A negra masmorra vai manchar de cor?
Apenas lhe tira um pouco o fulgor...

XXII

Mulher (para Marino):
Certos homens têm um negro semblante,
Os seus olhos não respondem à luz do olhar
Pois estão mergulhados na sombra. Mas os teus
Têm a escuridão abafada da noite tropical
Onde o relâmpago está prestes...

XXIII

Quando vagueio pelo campo cheiroso
Tudo para mim é tão prazeroso:
As folhas de relva, gráceis no curvar,
Têm o seu terno e fresco cantar.
Nada é silente: com voz brusca, imensa
Dá a tempestade sua rude sentença;
As árvores, que à brisa sussurros dão
Parecendo o silvo de mares de verão,
Contam dos jardins coisas divertidas
Iguais às das flores tenras e garridas.
A estes prazeres entrega a razão
E, quando leres, entenderás então
Que os livros são só ideias da Natureza
Com outro fato e menor beleza.

XXIV

Nada é silente; tudo pode falar
Em tom forte ou fraco, em voz variada;
Aprende a ouvir e vai-te alegrar
Descobrindo em tudo uma voz que agrada;
A tormenta falar-te-á e o vento incerto
Te dirá segredos ao correr, liberto;
Histórias divertidas murmura o ribeiro,
As árvores sussurram, o mar a gemer,
Na terra a planície e o campo inteiro
Contarão seu conto — se o fores entender.
Também o silêncio se fará ouvir
Quando na paisagem a noite cair,
Vozes secretas farão o teu espanto
E os mortos palram em mágico encanto
Comuns com a Natureza; que o teu pensar
À voz da Natureza se vá juntar...
Não te espantes, pois, que eu ame a solidão:
As vozes humanas são rudes, sem graça
Para mim, que na campa queria a inscrição:
Pensar e escrever lhe foi praga e desgraça.

XXV

OAteu—I

Lenta se ergue a Leste a orbe em oiro e poder,
E todo o céu e terra já parece envolver
Em fértil abraço; poisa no campo e na cidade
Coroando-os de esplendor e de claridade.
Como brilha o mar sob a ardente luz!
No vale e montanha como tudo reluz!
Com que prazer o camponês o sol alegre saudou,
Seu companheiro: neles a manhã sempre começou
À mesma hora e, quando Apoio desce cansado
Com suas galas no Oeste distante e rosado,
Também ele busca o calor do rústico lar
Onde só alegria e pureza podem habitar;
Mais que uma epopeia vale a sua história.
Como os jovens sonhos são do sol a glória!
Em pompa e grandeza cruza o azul dos céus
Qual anjo de luz a nós enviado por ordem de Deus;
Mas lento — mais lento — mergulha: nem sinal visível
De luz e na terra cai da noite a sombra terrível.
Assim nossa alma: nossos sonhos jovens lá vão,
Alto erguendo ao céu a esperança e a ilusão;
Mas cedo partem — deles nem a forma já se apura,
Pois são espectros perdidos na total negrura.
Mas, em comum com o sol, uma coisa não têm:
Após a noite, negra e fria, o sol brilhante vem,
Mas eles não voltam mais. 
                              Basta! Do sol os raios luzentes
Que, brilhando, alegram a terra, os rios, as correntes
E tanto cobrem as casas pobres como os castelos,
Na cidade de Roma poisam claros e belos —
A chamada cidade de Deus, pelo diabo apossada,
A dita cidade do bem, mas pelo mal habitada
E sua luz que conforta palácio ou morada
Faz manter de pé essa catedral espantosa e ousada!...

XXVI

Pudesse eu, orbe de luz, como tu constante ser,
E bondade e alegria a cada lar conceder,
Fosse eu brilhante e levasse a cada ente uma bênção,
Não chorava a vida, curta, neste desespero vão;
Mas não sou, como tu, constante, nem como tu sou vistoso,
Não tenho força p’rò bem, mas um coração bondoso;
Gasto em pranto pelos outros o poder de fazer bem...
(...)
Oh, orbe gloriosa, em céu primaveril se a gente
Está feliz, e que tão lembrado és se estás ausente;
Como hoje te desejo! Só num céu de inverno sombrio
Te acho parecido comigo...
(…)
Orbe imortal, oh, em tanto tempo do teu existir
Que cenas viste, a que horrores assististe, no seu fluir?
Brilhaste um dia talvez na Grécia verde, ensanguentada,
Tua orbe, visível, quando a armada troiana foi destroçada;
Viste erguerem-se poderes e brilhaste ao seu final,
Viste o nascer de imperadores e sorriste em seu funeral.
Teu carro de fogo sempre veloz, inda se alguém chora,
Conta-me as lendas, soi, que aprendeste pela terra fora!

XXVII

                                         ...…Também as doutrinas
De Pitágoras, do Sócrates sagrado,
Do porta-voz Platão, do Cícero banal
E de muitos mais. Não meditei em vão
Nos velhos livros de árduo saber. Não me falaram
Os sábios em solenes páginas de contenção?
E, contudo, nada sei; quanto mais leio
Mais confuso fico e maior o enleio...

XXVIII 

     — Morreu o velho James, fazia tudo bem feito;
Merece o céu ou o inferno? 
     — James foi um ladrão; seu trabalho era perfeito;
Então, se não roubou o céu, o inferno.

XXIX


XXX

Houve um tempo em que as Coisas sagradas
Existiam, mas agora modernizadas
Ficaram todas erradas e distorcidas
Deformadas, tortas e corrompidas.
Dantes, as coisas divinas não iam dar
Artigos no comércio de escrevinhar;
Agora, para bem do casebre e do salão,
Pôs-se em romance a própria Paixão.

XXXI

Ela veio com gestos lentos e olhos mortiços
Com uma certa malícia e membros lânguidos,
Seu corpo meio nu, cabelo meio solto
Belo em sua desordem e o rosto meio calmo
E afogueado, como saída de um leito de amor.

XXXII

XXXIII 

Muitas coisas grandes os homens disseram,
Contudo as maiores ficam por dizer —
A noite contém, mais que o dia, pavores,
Desgraças, angústias várias, amores,
Paixões contidas no auge e partidos
Corações no silêncio interrompido...

XXXIV


XXXV

Nada é silente; toda a Natureza fala para mim:
As águas estrondosas e as árvores caladas,
O mar, as aves, as flores sossegadas,
Pequenos insectos de tão curto fim.
Falam para mim, erguendo voz e canção
Em som variado, sábio duplamente;
Com sério sentido e vivo ensinamento
Suas vozes se elevam em feliz exibição.

XXXVI

Mas se olhares a Natureza com ideias feitas
Ela não será mais que o eco do que pensas...
E qualquer rosa que espalhe todo o odor
Te contará uma história de terrível dor;
De mente vazia vem junto a este altar
Mas preparado; então logo irás encontrar
Como tudo fala com voz verdadeira...
Mas embora a Natureza fale assim, sempre,
Contudo uma só coisa diz de muita maneira. 

XXXVII




XXXVIII

Tão grande a vontade que nada adiou
A não ser aquilo que não começou;
Tão grande o poder que tudo abraçava
Mesmo a mulher, se assim desejava;
A tudo o que tinha ficava agarrado,
Como a corda ao pescoço, ao ser enforcado.

XXXIX

De dia deitado sob o tecto frondoso
Solitário o poeta, meio desperto a sonhar,
Talvez possa ouvir, em seu estar ocioso,
Os sons que à lua a noite quer dar
E canções infantis do amanhecer,
Sons etéreos e queixumes do peito saídos
E música que faz o pranto aparecer —
Espuma que deixa os rochedos de amor perdidos
Em mares soantes, de praias desconhecidos.

XL

Os céus sorriem, o dia reluz,
Vestido de verde o bosque seduz;
Sem chuva, as abelhas afadigadas
Fazem a colheita nas flores encarnadas;
Gráceis, as aves em tons vários se exprimem
E toda a alegria em canções definem;
O vento provoca, em prazer sussurrante,
Risadas em coro nos jovens amantes.

Nota da editora e tradutora: Os fragmentos XXIX, XXXII, XXXIV e XXXVII não foram traduzidos por serem, já de si, uma tradução de Pessoa-Search.


i903/1904

In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alexander Search
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