Ó que horroroso medo de sentir-me!
Como me é erro e fome o existir!
E cada oco minuto vem pedir-me
O cansaço forçado de o sentir...

Sinto que nem sequer posso erguer braços
Inda que fosse para obter um céu...
Meus próprios pensamentos soam lassos
E alguém em mim tem ódio de ser eu.

Hoje, não sei porquê, um tédio imenso,
Um tédio enorme como um céu desceu
Sobre o meu coração deixado e denso
De quanto sente que sempre sofreu...

10 - 4 - 1914

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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