Ó dia pesado, que nasce assim a brilhar
Vindo de Leste.
Ele torna turquesa o silêncio do mar
E faz uma festa
Do azul das vagas fugindo a vibrar.

Ó dia pesado, pois o meu amor desapareceu
E levou consigo
Seus braços e boca que, como papoilas, cresceu
Através desse dia
Quando primeiro o vi e meu coração gemeu.

Minhas mãos estendo em sua direcção,
Mas ele não vem.
Parece uma mulher e o gesto da mão
De mais fez nascer
Sonhos de estranho vício na terra do coração.

É pouco mais que criança. Seu corpo é branco
E os braços nus
Ao pescoço, como um prazer, vêm-se colar
Do qual meu quinhão
É triste como, longe, um barco à noite a passar.

Tudo isto é sonhar contigo. Oh, amor, regressa!
Volta e desperta
Meu corpo fremente para essa dor atroz
Que o amor toma
Pelo seu corpo, quando os amantes são como nós.

Rapaz dos cabelos de oiro que não me pode amar
Como eu a ele,
Olha, a vida é curta e os lábios vão-se apagar...
Sim, sou triste e feio
Mas ama-me um pouco ou finge... Primeiro amar
Antes de partir e, depois, que eu sonhe
O que foi real, enquanto a vida se esvai devagar...


In POESIA INGLESA II , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 2000
Fernando Pessoa
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