Do cavernoso albergue, ao sol vedado,
sai, de relance ao menos,
ó alva ninfa, solitária e meiga,
da fria e clara fonte!

Quão bela deves ser, se a natureza,
ó náiade escondida,
a urna argêntea em tuas mãos confia
de tão formosas águas!

Ou pela aberta rocha ao menos lança,
a furto, os negros olhos;
e por entre o molhado e verde musgo
transluza o níveo rosto.
Vê com que esmero e pompa a natureza
adorna o teu retiro.
Olha estas grandes árvores, que apenas
sentem do vento os sopros.

Olha a mansa bacia, onde se espraia
tua água transparente.
Farto musgo a atavia, e musgo em torno
gratos assentos forma.

Olha, vê que nem Euros te perturbam
o teu cristal sereno,
nem gado, nem pastor, nem ave ou fera,
nem folha desprendida.

Com que rumor as águas, em saindo
do seu não fundo tanque,
descem, saltando em fugitivo arroio,
pelo teu monte abaixo.

Castas sombras, pacífico retiro
tão velho como os montes,
¿Sabeis que existe um deus com asas de ouro
que os corações inflama?

Não. Jamais entre vós ternos suspiros
que amor arranca aos peitos,
nunca maviosas queixas se escutaram
de corações escravos.

Aqui só reina a paz; vivem com ela
as austeras virtudes:
É destes cumes solitários, tristes,
que o mundo se despreza.

Jamais humana dextra em vossos troncos
gravou terna legenda:
Oh! Quem goza do pranto matutino
da aurora, em tais lugares?

¿Quem é que ao pôr-do-sol daqui contemplo

o corado horizonte?
¿Para quem solta o rouxinol em Maio
seus nocturnos gorjeios?

¿Quem se aproveita do luar, que deve as horrorosas sombras romper aqui e ali nas tardas horas Da noite sossegada?...
Ninguém. – ¿Porque juntaste estes encantos,
pródiga natureza?
Aqui não vem Glícera, ou Cloe, ou Dafne
toucar-se junto à fonte.

Nunca as graças gentis aqui vagaram;
nunca talvez um vate
se aproveitou dos mágicos delírios
que geram tais lugares.

Tu vives, pois, quieta em teu retiro,
rara vez procurada,
ó alva ninfa, solitária e meiga,
da fria e clara fonte.

Tenhas sempre, nas húmidas cavernas,
de águas alma abundância:
O ardente Junho, o túrbido Janeiro
igual te vejam sempre.

E quando, gasta a rígida cadeia
donde o universo pende,
já sem ordem, sem leis, o velho mundo
cair solto em pedaços,

Então, antes que o caos as dispersas
relíquias engolfado
no horror medonho da segunda noite
houver, salva-te, ó ninfa,

Com teus vassalos, invisíveis génios;
transporta num momento,
inteiro, este lugar sobre algum monte
do aventurado Elísio.

Por ora, dorme em paz, meia encostada
sobre a urna argentina.
Aqui ninguém teu sono descansado
virá interromper-te.

Só na alta noite alguma vez, já quando
alto silêncio impera,
acordarás ao baque de algum tronco
dos anos carcomido,

Que farto de ver séculos, e curvo
já por mil tempestades,
desarreigado enfim cair no meio
da mata que te cerca.

 

António Feliciano de Castilho
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