Eu irei contigo, na hora batel de flores, 
Pelo rio improfícuo de nos sentirmos viver, 
Sem remos nem alarde ao acaso das cores 
Que o poente pinta no incerto rio, perder 

O sentimento preciso da contingência das cousas, 
A líquida confusão de viver com sentir, 
E tudo isso será uma ilha cheia de rosas 
A meio do rio, ensombrando o barco passando rente, a delir 

A sua forma na água e na tarde. Iremos 
Para a dissimulação magoada onde o rio alarga 
E cansa vagamente não termos vela nem remos, 
Nem um destino pensado para alívio da hora amarga.
 
Tudo isto se terá passado quando chegarmos, no escuro, 
À vida, onde outra cousa que nós nos acontece, 
Nas áleas de labirinto por onde à terra desce 
O guarda do Vale das Névoas e da Porta no Muro. 
10 - 2 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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