Em torno a mim, em maré cheia,
Soam como ondas a brilhar,
O dia, o tempo, a obra alheia,
O mundo inteiro a ‘star.

Mas eu, fechado no meu sonho,
Parado emigro, e, sem querer,
Inutilmente recomponho
Visões do que não há-de ser.

Cadáver da vontade feita,
Mito real, sonho a sentir,
Sequência interrompida, eleita
Para os destinos de partir,

Mas presa à inércia angustiada
De não saber a direcção,
E ficar morta na erma estrada
Que vai da mente ao coração.

Hora própria, nunca venhas,
Que ontem talvez foi pior...
E tu, sol claro que me banhas,
Ah, banha sempre o meu torpor!

26 - 4 - 1926

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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