O co que veio do abismo 
Roeu-me os ossos da alma, 
E erguendo a perna — o que eu cismo —
Mijou no meu misticismo 
Que me dava a minha calma. 

O co veio de onde dorme 
Aquele anseio que tenho 
Por qualquer coisa de enorme 
Que indistintamente forme 
A forma de quanto estranho. 

E depois de isso completo 
O co que veio do abismo 
Que estava inteiro e repleto 
Fez sobre tudo o dejecto 
Que hoje o meu misticismo. 


24 - 6 - 1934

In Poesia , Assrio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002
Álvaro de Campos
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