Não como ante donzela ou mulher viva
Com calor na beleza humana delas
      Devemos dar os olhos
      À beleza imortal.

Eternamente longe ela se mostra
E calma e para os calmos adorarem
      Não de outro modo é ela
      Imortal como os deuses.

Que nunca a alegria transitória
Nem a paixão que busca — porque exige
      Devemos olhar de néscios
      Olhos para a beleza.

Como quem vê um Deus e nunca ousa
Amá-lo mais que como a um Deus se ama
      Diante da beleza
      Façamo-nos sóbrios.

Para outra coisa não a dão os deuses
À nossa febre humana e vil da vida,
      Por isso a contemplemos
      Num claro esquecimento.

E de tudo tiremos a beleza
Como a presença altiva e encoberta
      Dos deuses, e o sentido
      Calmo e imortal da vida…

[11-8-1914]

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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