Amor da Pátria — amor místico e santo
Porque se compreende e não se explica —
A alma só ama grandemente e tanto
      O que a transcende e nela fica,
      Aquilo de que é pobre e rica.

Que é a terra-mãe de quem nascemos
Senão isso mesmo em maior?
Nela o maior egoísmo temos
      Que só não cabe no que sós podemos
      Como, □, o mercador

Seu ócio natural e paciência
Os seus possíveis descuidosos dias
      Sacrifica à ciência
Do lucro e das futuras regalias,
Assim à pátria nos sacrificamos
Porque a nós mesmos nos maiores damos,
E com dar-nos maiores nos tornamos.

      Todos nós uma pátria temos
Ou seja a terra em que nascemos
Ou seja o lucro a que o ócio em sacrifício oferecemos,
Ou seja o ideal

Se assim nos de nós mesmos desvestimos,
Para a nós mesmos mais nos encontrarmos,
Antes o sacrifício em que existimos
Seja à mãe-terra que a outra imaginada.

12 - 6 - 1925

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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