É interior à minha mágoa 
A alegria do dia claro... 
Oh nudez trémula da água... 

Porque me sinto eu desolado 
De haver tanta calma e alegria 
E nenhuma em meu ser cansado... 

Acaso não me bastaria 
Olhar a alegria da terra 
E ser alegre como o dia? 
 
Ah, ensina-me, ó Natureza, 
A dar minha alma inteiramente 
À calma da tua beleza 

A não ter alma salvo a hora 
A pertencer-te, ampla alma rente 
À tua alma geradora 1 

Qualquer coisa que não seja esta 
Agonia do pensamento 
Que é o que do meu ser me resta... 

Sopra, sopra, sopra, vento... 
Grande invisível alma em festa... 
Que há entre mim e o momento? 



1 Palavra dubitada: geradora.
3 - 10 - 1915

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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