Há um grande vento entre os montes,
E os vales têm alegria.
Aqui não há horizontes,
Mas só os cimos e o dia.
Aqui se esquece o passado,
Até o só imaginado.

Aqui, porque toda a gente
Está do outro lado das serras,
E não há rio que intente
Ligar-nos a outras terras -
Aqui calmos aguardamos
O nada que já esperamos.

Sempre a vontade nos falha
Sempre o desejo nos sobra.
A consciência é uma batalha,
A fantasia é uma obra
Absurda em trezentos tomos.
E a vida é o que não somos.

28 - 10 - 1930

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar