Não a ti, Cristo, odeio ou menos prezo
Que aos outros deuses que te precederam
      Na memória dos homens.
Nem mais nem menos és, mas outro deus.

No Panteão faltavas, Pois que vieste
No Panteão o teu lugar ocupa,
      Mas cuida não procures
Usurpar o que aos outros é devido.

Teu vulto triste e comovido sobre
A stéril dor da humanidade antiga
      Sim, nova pulcritude
      Trouxe ao antigo panteão incerto.

Mas que os teus crentes te não ergam sobre
Outros, antigos deuses que dataram
      Por filhos de Saturno
De mais perto da orige igual das coisas,

E melhores memórias recolheram
Do primitivo caos e da Noite
      Onde os deuses não são
Mais que as estrelas súbditas do Fado.

9 - 10 - 1916

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
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