NÃO! Isso NÃo!
Não tragas com essa cantiga —
Esse mero som de canção —
A tristeza de uma alegria antiga
Ao meu coração.

Essa cantiga de Lisboa
Era a que me cantava
Minha mãe quando eu mal andava.
A vida era então eu bebé e boa
E dia a dia a mesma estava.

Porque foste cantar
O que veio acordar
Em meu coração, que dormia!
Como que um som de mar
Como que um ar de maresia?

Já sou triste bastante
Para que precise
Que a tua voz, a distraída, cante,
Sem que com o canto encante
O antigo, o amigo. Ah, dize, dize...

Dize, ainda que eu sofra... Canta bem —
Ou mal — nada me importa — essa canção
Com que me embalava minha mãe,
Longe, longe, quando eu era ninguém
E andava ao colo, e também
Não tinha que pensar nem ter razão.

28 - 10 - 1934

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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