é morna a temperatura no interior da casa
o obsessivo quarto onde tudo se passou continua branco
e triste o sonho de espelhos onde te deixei morrer

tolhem-se-me na língua uma ave azul e um bicho de enxofre
tacteio o peso exagerado do insecto em volta da lâmpada
é tempo de cocaína dizias...o insecto vai morrer

o mar sobe de repente aos dedos escava a pele
enche-me de susto...outra voz mansa arde
rastejando na espiral infindável de um búzio
posso distinguir os rumores dos objectos
e o rugido espantoso da fera agarrada aos ombros

- Tu e as ilhas, chegavam no início da memória.
- Sempre aqui estive, raramente abandonei o corpo.
- Escuta, parece que ainda se ouve a nossa respiração.

já aqui não pernoitas nem falas comigo
nem és o imperceptível frémito de asas sobre o papel
e nas palavras vazias de ti vêm definhar outras aves
urbanas tartarugas estátuas de bronze e ferrugem
eis o que morre junto aos alicerces sombrios das sílabas.

o desejo desertou
nenhum espelho te substituiu para me enganar
o arco-íris da noite desprende-se do fundo do mar
com seus novelos e suas eiras de limos incendiados.

Al Berto
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