A vida me aborrece, a morte quero.
Ser eterno o meu mal, segundo entendo,
pois na mor esperana desespero.

Sem viver vivo, por morrer vivendo,
por no verdes, Senhora, como eu vejo
quanto de mi por vs me ando esquecendo.

Seja-me agradecido este desejo:
ingrata no sejais a quem vos ama
com puro e honestssimo despejo.

A culpa que me pondes, ponde-a Fama
que pregoa de vs celeste vida
que os coraes de amor divino inflama.

Humana, quando no agradecida,
vos mostrai ao mal meu que me faz vosso,
antes que a alma do corpo se despida.

Mas que passo eu fazer, pois j no posso
um tormento domar to forte e duro,
homem formado s de carne e osso?

Em minha f segura me asseguro,
porque esta, quando grande, jamais erra,
se resulta de amor sincero e puro.

Essa Beldade santa me faz guerra;
por ela hei-de morrer, inda que veja
tornar o brando rio em dura guerra.

Que cousa tenho eu j que minha seja?
Quem no deseja a vossa fermosura
no pode assegurar que o Cu deseja.

De que eu sempre o deseje estai segura:
neste desejo meu nunca mudana
ho-de ver as mudanas da ventura:

A vida tenho posta na balana
da glria singular do dano esquivo,
que o perd-la por vs mor bonana.

Se vos ofendo, cuido que no vivo.
Olhai se muito mais que de ofender-vos
das esperanas do viver me privo.

O que temo somente s perder-vos;
o que quero somente s adorar-vos;
o que somente adoro s querer-vos.

Querer-vos sem deixar de venerar-vos;
desejar-vos somente por servir-vos;
por servir a amor vil no desejar-vos.

Somente ver-vos e somente ouvir-vos
pretendo, e pois somente isto pretendo;
deveis a estes sentidos permitir-vos.

Isto somente, cego, estou dizendo?
Como se fora pouco isto somente!
Que mais que ouvir-vos h que estar-vos vendo?

Se o no merece o meu amor decente;
se morte por amar-vos se merece,
morra eu, Senhora, e vs ficai contente.

Se vos agrava quem por vs padece,
se vos vem a ofender quem vos quer tanto,
quem desta sorte errou no desmerece.

Que quando os olhos da razo levanto
ao cu de essa rarssima beleza
de no morrer por ela s me espanto.

Deixai-me contentar desta tristeza
e fazer de meus olhos largo rio,
se algum pode abrandar vossa dureza.

Correndo sempre as lgrimas em fio,
farei crescer as ervas por os prados,
pois j de outra alegria desconfio.

No monte darei pasto a meus cuidados,
e sero de mi sempre entre pastores
esses divinos olhos celebrados.

Aprendero de mim os amadores
aquilo que se chama amor sublime,
ouvindo o rigor vosso e minhas dores.

E nenhum haver que a pena estime
mais soberana por a causa dela
que a que teve at ento no desestime,
e que inveja no mostre minha estrela.

 

Luís Vaz de Camões
[A VIDA ME ABORRECE A MORTE QUERO.]
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