As nuvens passam pelo céu,
As nuvens passam, lentamente.
Minha alma perde o vago véu
Que a faz descrente.
Vê as cousas directamente.

Não importa que vida tenho.
Não sei de ser.
Vago, informe,□ desenho,
Oculto ter
No alado azul que desempenho.

Porque, de sentir, me aproximo
Do ar e do céu;
Retomo o véu
E do exterior em mim me animo
E o espaço imenso faço meu

Sem intervalo
Entre mim e o exterior,
Sou, porque calo.
Cismo e resvalo
Para uma sombra do meu torpor.

Minha incorpórea semelhança
Com languescer,
Vem ter comigo, e a hora dança
Só porque comigo vem ter.

Fecho as portas a mal sorrir.
Sentindo o céu por dentro fora.
Venho ver as nuvens fugir
Como se ver fosse sentir.
Calo! Minha alma dorme a hora.

28 - 5 - 1917

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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