— E eu, que serei sempre como colocado ante o Longe,
— Que nunca partirei definitivamente,
— Procuro o meu sonho, embora o perca [.] do Oriente,
Mas ficarei eternamente comigo
Dentro em meu próprio sonho dele ausente.

Eu que nunca verei a aventura de perto
Que nunca beijarei os lábios da Distância
E nunca sentirei vir pra mim a fragrância
De lábios reais sob um céu outro e certo
E eternamente numa incerta infância

Eternamente virgem de afastar-me
Por mais que pese sobre mim a vida
E o Lugar seja a escória endurecida
Da ânsia infiel e interior de dar-me
A um falso e eterno impulso para a Ida.

Eu que nunca serei mais que o que anseia
E já sabe, ao nascer, que não alcança
Aquilo que parece ser a esp’rança
E nem □ se recreia
Dum gesto como que de quem se elança...

Invejo a tua vida arremessada,
Atirada p’ra longe, p’ra perder-se...
Vida que abre as velas, e ei-la a encher-se
De si sem pensar em ter uma chegada,
E de estar longe sem pensar em ver-se.

Invejo a tua vida e tenho dela
Que não foi minha, como que saudades,
Descem em mim obscuras ansiedades
Um mar em mim tormentas em capela
Feitas das minhas ocas saciedades.

Possuidor do Longe que sonhaste,
Torturado por tua imperfeição...
Não sei porque tu não viveste são
Flor que tanto soube ser alta na haste
Que em vício e sombra... mas desabrochaste
E a tua vida foi o teu perdão.


[.] palavra elegível

□ espaço em branco deixado pelo autor

20 - 11 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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