Enquanto eu vir o sol doirar as folhas
E sentir toda a brisa nos cabelos
      Não quererei mais nada.
Que me pode o Destino conceder
Melhor que o lapso gradual da vida
      Entre ignorâncias destas?
Pomos a dúvida onde há rosas. Damos
Metade do sentido ao entendimento
      E ignoramos, pensantes.
Estranha a nós a natureza externa.
Campos espalha, flores ergue, frutos
      Redonda, e a morte chega.
Terei razão, se a alguém razão é dada,
Quando me a morte conturbar a mente
      E já não veja mais
Que à razão de saber porque vivemos
Nós nem a achamos nem achar se deve,
      Impropícia e profunda.
Sábio deveras o que não procura,
Que encontra o abismo em todas coisas
E a dúvida em si-mesmo.
16 - 6 - 1927

In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, 2000
Ricardo Reis
[[ENQUANTO EU VIR O SOL DOIRAR AS FOLHAS]]
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