Ah, se eu pudesse dizer
Tudo quanto nunca disse
Nem soube em mim conhecer
Qual se com olhar a visse!...

          «As bandeiras desfraldadas
          Dos regimentos do rei
          Espelhantes as espadas
          Esmolantes pela grei.»

Quanto mais eu abro as asas
Mais sei que não sei voar...
Ver só fachadas das casas!
Ver do céu a terra e o mar!
 
          «Ah as bandeiras rasgadas
          Das hostes do rei deposto!
          E quebradas as espadas...
          (Ninguém morreu no seu posto!)»

Se eu tivesse tudo aquilo
Que às vezes julgo que quis
Eu não seria tranquilo...
Mas podia ser feliz...

          «(Nunca chegaram ao mar
          As insígnias da vitória
          Rolaram pelos degraus...
          O reino não tem história.»

20 - 11 - 1913

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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