Ó vento, evocas montanhas,
Encostas com arvoredos,
Onde, com garras estranhas
Com que os ramos arrepanhas,
Fazes das árvores medos.

Evocas... Mas nesta rua
Onde nem árvores há
A abstracta violência tua
É como uma pessoa nua —
O natural que ali está!

Ninguém montanhas evoca,
Ninguém sabe mais de ti
De que trazes pó à boca,
De que és ar que desloca
No momento só aqui.

Meu Príncipe, o teu segredo
De magia e condição,
Ficou lá entre o arvoredo,
Aqui és teu arremedo,
Vives de erguer pó do chão.

Assim meu ser com que amei
Deuses antes de a alma ver
Vive hoje dentro da lei
Que fez de mim quem não sei,
O chão do nada a varrer.

18 - 11 - 1933

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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