Dói-me a alma como um corpo, e o peso todo
Do que é o mundo se o sentimos ser
Confunde de torpor o abstracto modo
Como me sinto compreender.
Não tarda a noite vasta a alvorecer.
Paira um silêncio frio e vegetal
Sobre onde caiu a chuva — a terra, ou o lodo,
As árvores e arbustos do quintal.

Inerte e abandonado transfiguro
O cansaço que vem de não dormir
Num grande e ermo cansaço, incerto e escuro,
Onde não sei como sentir.
O que sinto nasceu da insónia e o sono,
Mas, como alheio, cerca-me e é um muro
Com que o ermo mundo é meu senhor e dono.

Tudo quanto se pode em sentimento
Trazer de mágoa à tona de pensar —
Infância morta, porvir nevoento,
Não pode querer nem amar,
Tudo isso, como se existisse e não
Fosse um vácuo sem forma, noite ou vento,
Me pesa como uma desilusão.

15 - 3 - 1932

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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