Brincava a criança
Com um carro de bois.
Sentiu-se brincando
E disse, Eu sou dois!

Há um a brincar
E há outro a saber,
Um vê-me a brincar
E o outro vê-me a ver.

Estou por trás de mim
Mas se volto a cabeça
Não era o que eu qu’ria
A volta não’ é essa...

O outro menino
Não tem pés nem mãos,
Nem é pequenino
Não tem mãe ou irmãos.

E brinca comigo
Por trás de onde eu estou
Mas se volto a cabeça
Já não sei o que sou.

E o tal que eu cá tenho
E sente comigo,
Nem pai, nem padrinho,
Nem corpo ou amigo,

Tem alma cá dentro
‘Stá a ver-me sem ver
E o carro de bois
Começa a parecer

Uma cousa diferente
E ao pé de uma casa,
E fico a pensar

Se eu tivesse outra vez
O menino de lá,
O carro de bois

E o carro de bois
Depois já parece
Só o brinquedo.

5 - 12 - 1927

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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