A dor, que me tortura sem que eu tenha
Caminho ou alma para lhe fugir,
Parece que, ao tocar-me, me desdenha,
E só me toca p’ra o fazer sentir.

Um nojo, não de mim por minha dor,
como que de minha dor por mim,
Jaz no fundo soez do meu rancor
Contra a dor sem razão que não tem fim.

E, neste circuito de dor e mágoa,
Não me encontro senão p’ra me odiar,
Como o viandante à noite ouve um som de água
Apenas para dele se afastar.

19 - 1 - 1920

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
« Voltar