Que nos importa que a lua morta tenha ou não tenha traços
     Do antigo mundo que viveu rindo?
Que seja cinza o que era calor ao calor dos nossos abraços?
De nada nos serve... Fechemos os olhos, cruzemos os braços.
     E desesperemos, sorrindo.

A vida é pouco e a dor é muito. Ao luar e à noite esquecemos
O nosso ser de sob o sol;
E já que a corrente nos leva silente, abandonemos os remos;
E visto o falar a acção nos lembrar, calemo-nos, escutemos:
     Talvez cante o rouxinol.

E daí quem sabe na noite o que cabe? Da solidão infinda
     Talvez raie um sol e um dia,
E à barca que erra... talvez uma terra lhe espere obscura a vinda.
Talvez não seja o rouxinol que cante... Esperemos ainda,
     E talvez seja a cotovia.

23 - 7 - 1910

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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