I

Meu conto é breve, é simples e triste —
Simples como os contos a que a dor assiste,
Breve como tudo o que é nosso, embora
Pareça eterno a quem nele chora;
Não é um conto de glória ou de fadas
Mas curta poesia, desesperada;
Negra como tudo em que se é apanhado
Nas malhas do pensamento envenenado.
Não há nela chama de amor, fogo antigo,
Nem se canta o desejo, livre ou reprimido,
Nem milhares de heróis enchem seu projecto,
Mas tem só um homem como objecto.
Homem? Rapaz, se juventude pode ser
O tempo em que exista um grave sofrer.
Ë sobre um rapaz que tudo comove, duende
Desprendido de ventura ou riqueza,
Mas fadado a só cantar o que sente.

II

Para a alegria e o amor não nasci.
O céu além e esta terra aqui
Forçam um sentido dentro da alma
Que funda e divinamente embala,
Como um tremendo, místico mar
Em terras onde só sonhos podem estar;
Um sentimento que é melancolia,
Chorando de amarga alegria;
Um sentido que é desolação —
Não sei por que havia de sentir assim
Perante as coisas que tão belas são.

A beleza é mais que todo o gozar:
O que só agrada faz enfastiar
E a Natureza não sacia nem desagrada
Mas dá uma tristeza, como de passadas
Coisas que o Presente só veio herdar,
De algo onde existe profunda surpresa
E, adormecida, a delirante beleza
Que certa mágoa ao espírito vem dar.

Pois Prazer não é Alegria — sabemos bem
Que a Alegria no coração vive em mágoa;
Ou um ou outro em nós vive; o dardo
Que mata a Mágoa a Alegria o disfere.
Prazer e desprazer disto difere.
Alegria e Mágoa são como as estranhas,
Indefinidas formas de vida e mudança
Ignoradas no mar, na funda vastidão.
Pura é a fundura da sua emoção.
Prazer e dor não são similares,
Mas tal como à superfície dos mares,
A alternância do seu movimento
A aparência muda sem cessar.
A Alegria pode, como a luz do sol, ultrapassar
As nuvens da Dor; o Prazer pode ser
Apenas o rosto e o olhar do Sofrer.

III

A Natureza gela-me de medo intenso
Pois acho que a Natureza, gasta somente
A olhar de perto meu desgosto imenso,
Mais não é que Mistério eloquente.
A mais simples pedra, a mais simples flor —
Tudo tem um vasto e profundo sentido
A escarnecer do momento vivido.
Mas este seu sentido ultrapassando
Em muito o que os poetas vêm cantando,
Fá-los ficar loucos, tal como eu estou,
Exprimindo de modo sublime e absurdo
Estranhas ideias para seres mortais.
Mas acho que o Homem é mais de temer,
O seu pensar, o sentir, o querer,
Tudo é tão pouco claro ao meu olhar
Que sobre o sentido do que chama alma
— Do ver imperfeito então nem se fala —
Não imagino poder teorizar.

Pois os que criaram leis, religiões
E, pelos caminhos do sentimento
E da especulação guiaram nações,
Viram tanto do mundo como eu, de momento
Nada. Tudo o que puderam compreender
É que a Natureza algo quer dizer.
Para além disto, foi só parar ou delirar.
A maioria, porque delirou, pôde acreditar.

Contudo eu, envolvido naturalmente,
Como as aves nas penas normalmente,
Na hesitação e na minha dúvida,
Acho todo o mundo uma coisa absurda
Porque eu, ao mundo ligado,
Me sinto absurdo, desajustado.
Aprendi bem novo a pensar friamente
E tirei firmes conclusões, ousadamente,
De ideias e factos que abalam as crenças
Sem olhar às falsas, humanas carências.
Um grande rigor lançou em mim o grão
Da loucura, e foi propício o chão
Para o anormal crescimento da dor
Cujas flores, vermelhas, são do sangue a cor.

Bem cedo, com clareza aprendi a ver
E por isso agora nada pode captar
Meu coração, exaltado a argumentar,
Vendo só noite onde os poetas vão dizer:
«É dia que bem o vejo — é dia.»
Eu só canto o medo, eles a alegria.

Ai de mim! Por que havia assim de ficar
Parado na vida, na enfermidade,
Vida que desposou a Insanidade?
Que eu me separe dela com firme intenção.
Que eu deixe o que é frívolo para cantar
A dor mais profunda da minha canção.


In Poesia , Assírio & Alvim , edição e tradução de Luisa Freire, 1999
Alberto Caeiro
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