Dói-me a alma como um dedo. Nem
      Sobra da dor com que chorar.
Tem com a vida por vil por quem
      O vil mais vil pode enganar.

Orgulho? Serve p’ra que o riso
      Dos outros possa ter efeito.
Esgar de mim, sou o preciso
      P’ra que vaguear me tenho feito.

Quanto me dói que não doera
      Se eu fosse como quem sou!
À margem, falsa primavera
      Que o inverno póstumo gelou!

No silêncio onde escuto a vida
      Só um riso chega ao meu ouvido.
Não queiras, alma adormecida!
      Não ames, coração perdido!

9 - 2 - 1920

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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