A minha alma ajoelha ante o mistério
Da sua íntima essência e próprio ser,
Faz altar do sentido de viver
E cálice e hóstia do seu grav e etéreo

Senso de se iludir. Corpo funéreo
Doente da vida. Alma a aborrecer
O que nela é do corpo... Vida a arder
Tédio, (e) as sombras são seu fumo aéreo.

Sombra de sonho... Hálito de mágoa..
Alma corpo de Deus, disperso e frio
Boiando sobre a morte como em água...
 
Indecisão... Penumbra do pensar.
Fonte oculta tornada claros rio...
Rio morrendo-se no imenso mar...

22 - 6 - 1912

In Poesia 1902-1917 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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