Com o seu maior grito,
A sua comunhão casual e breve
           Com o Infinito
O Deus Lusíada incarnou em mim
O Futuro escropiu-me em reprimi-lo
E todas cousas que não têm fim
Couberam no meu espírito intranquilo
Infantes, Gamas, Albuquerques, Castros —
A minha voz é múltipla de os ter
Brilham todos em mim tornados astros
E eu sou o céu, excedo-os para os conter…
Alheia-me da vida o orgulho meu
Despersonaliza-me num Precursor
Dum Novo Deus maior
Que o Deus cristão, novo Sol de outro céu.
E de tão alto ir minha ânsia alada
Já não sei se sou eu, se sou o mar
Se sou a minha Razão ou Deus, no eu cravada
A abstracta ordem de Navegar

Sou todo Fogo, Multiplicidade,
Na névoa da minha unidade.


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006
Fernando Pessoa
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