A noite é calma, o ar é grave,
Na sombra cai um luar vago...
Subtil, a sem-razão suave
Da vida estagna como um lago
Na sensação, e a alma esquece
Ao fim dos parques da emoção,
Ao som da brisa que estremece
As águas dessa solidão.

Nesta hora, como se entretecendo
De uma meada em mãos com sono
Que vão compondo e desfazendo
Em afagos desse abandono,
Com sensações de mão que as tece
A mão que as tece adorno a alma
E o gesto, com que teço, esquece,
E o fundo da alma não tem calma.

Outrora, ao pé dos balaústres
Vizinhos a se ver o mar
E a noite, sonhos vãos e ilustres
Deram futuro ao meu sonhar.
Hoje, amargo de só ficar-me
Daqueles sonhos tê-los tido
Vivo de inútil recordar-me
Qual se fosse outro o eu vivido.

Outrora fui quem hoje me amo,
E não amava quem eu era.
Sem voz, oculto, por mim chamo.
Choveu na minha primavera.
A noite, sem saber de mim,
Com sua vaga brisa tece
Meadas de destino e fim
Em dedos em que a alma esquece.

Conheço o fundo ao gozo e à dor
Sem ter da dor e gozo havido
Mais que a sombra sem vulto ou cor,
E dos passos o coro e o ruído.
Ó noite, ó luar, ó brisa incerta,
Não me deis mais que eu nada ser.
Só me fiquei a janela aberta
Da vida, e a sinto sem saber.

18 - 7 - 1921

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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