Peões, saem na noite sossegada, 
Cansados, cheios de emoções postiças, 
Vão para casa, conversando em nada, 
Sob peles, e casacos, e peliças. 

Peões a que o destino não concede 
Mais que uma casa por avanço e sorte, 
Salvo se a diagonal lhes outra cede, 
Ganhando o novo, com a alheia morte. 

Súbditos sempre da maior mudança 
Das nobres peças que ou o Bispo ou a Torre 
Subitamente a sorte lhes alcança 
E no isolado avanço o peão morre. 

Um ou outro, chegando ao fim, consegue 
O resgate do que é outro do que ele; 
E o jogo, alheio a cada peça, segue, 
E a inexorável mão por junto impele. 

Depois, coitados, sob peliça ou renda,
Mate! Se finda o jogo e a mão delgada 
Guarda as peças sem nexo da contenda, 
Que, como tudo é jogo, o fim é nada. 

1 - 11 - 1927

In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005
Fernando Pessoa
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